terça-feira, 23 de maio de 2017

Alien: Covenant (Ozymandias)


"My name is Ozymandias, king of kings: 
Look on my works, ye mighty, and despair!" 
Nothing beside remains: round the decay 
Of that colossal wreck, boundless and bare, 
The lone and level sands stretch far away.

E com uma das referências mais incríveis de Covenant que começo meu post sobre o filme, e que maravilhoso é encontrar tamanha interdiscursividade numa seção de cinema, num sábado à tarde, num filme de terror sci-fi. O trecho é do famoso soneto de Percy Bysshe Shelley, curiosamente, marido de Mary Shelley autora do peculiar Frankestein, onde encontramos um médico "que brinca de deus". No soneto, Shelley utiliza a imagem de uma estátua de Ozymandias (apelido grego do faraó Ramsés II) para descrever temas como a arrogância, a transitoriedade do poder, a permanência da arte e a relação entre artista e sua obra. Humm...

Tentarei resumir e analisar apenas o início do filme, para que consigam entender a profundidade artística e filosófica de Covenant. Como sempre falo em minhas aulas de redação, é necessário certo repertório cultural pra que se entenda o argumento.


Com uma troca de diálogos brilhante, vemos David (Michael Fessbender) em seus primeiros instantes de vida, ser confrontado com diversas perguntas de seu pai (criador), Peter Weyland (Guy Pearce). A cena é visualmente linda, trazendo o olhar do realizador Ridley Scott, que busca trabalhar em contrastes. A começar pelo figurino, que divide Weyland do cenário, mas torna David parte do lugar, como se fosse um objeto. Weyland veste cores escuras esverdeadas, indicando maturidade e, em certo nível de corrupção moral, comum a todo magnata. Já David, recém-ativado, veste um traje todo branco, simbolizando ingenuidade e inocência.

Ambas as figuras entram em contraste direto com a força da natureza representada pela vista panorâmica. Há ali o perpétuo natural, o homem mortal e o perpétuo artificial criado para a perfeição, mas de função fútil. Aí vem a pergunta feita por Weyland: Qual o seu nome? E David olha para a estátua renascentista de Michelangelo e responde, David. Fantástico. Reparem que o Renascimento, por si só, é um movimento intelectual humanista. Logo, temos uma completa subversão deste humanismo ao androide escolher o nome de uma das principais obras renascentistas, pois David descobre em poucos minutos que é mais que um humano, é superior a isso. Depois, há de se levar em conta a carga bíblica do nome imortalizado tanto pela Bíblia, quanto por Michelangelo. A graça de sua estátua é capturar o herói bíblico momentos antes de sua batalha contra Golias. Pra David, o Golias é a humanidade.

Seguimos então para o melhor que Pearce oferece à personagem, ao contrário das claras aspirações à grandeza do robô, Weyland já o obriga a realizar tarefas banais, como lhe servir o chá. Ser um servo. Esse podar completo de suas pretensões ainda embrionárias entram diretamente em confronto com a primeira música que David escolhe tocar no piano: A Entrada dos Deuses em Valhalla de Wagner. O nome da sinfonia praticamente explica seu significado, mas há um bom jogo de ironias quando Weyland provoca David ao dizer “um pouco fraca sem todo o acompanhamento de uma orquestra, não? ” - Importante lembrar dessa frase, pois se trata de um embasamento para as motivações da personagem. As provocações os colocam em contrapontos claros e definem a parte do Ser da personagem. Algo que já em Prometheus estava mais superado, pois compreendia o que era e sentia aversão pela ideia de ser um ser humano. Felizmente, seu desenvolvimento continua até a conclusão da obra, mas é importante distinguir esse prólogo de todo o resto. Ele é a pérola de Covenant, e mostra um Fassbender bastante diferente, cru, do que veremos posteriormente com o próprio David e sua versão atualizada, Walter.

Como já dito anteriormente, neste mesmo blog, por sinal ontem, já tinha gostado bastante de Prometheus. O que muitos chamaram de pretensioso (como Interestelar, por exemplo) eu achei fantástico. Toda a discussão filosófica sobre a criação, de onde viemos, tudo isso é profundamente interessante, pelo menos pra mim, mas não parece o mesmo pros fãs de GTA. Confesso que Covenant me decepcionou, um pouco. Contudo, não pelos motivos que vem decepcionando a audiência. 

 O primeiro filme da franquia Alien (resenha sobre aqui) é um marco, anos se passaram e sequências foram feitas, umas muito boas e outras nem tanto. Fiquei particularmente muito animada com a volta de Ridley Scott na cadeira de diretor, pra contar as origens da franquia em Prometheus (2012) e dando sequencia em Covenant (2017). Não concordo, também como já dito, em nada com todos os detratores do filme Prometheus, na verdade ele superou todas as minhas expectativas. Como eu esperava que Covenant me decepcionasse muito, acabou que surpreendeu pela vilania do nosso querido replicante (vale a referência em se tratando de Ridley Scot) David, possivelmente, um dos melhores vilões da história do cinema.

 A história acontece 10 anos após os eventos de Prometheus, em que encontramos a tripulação da Covenant que segue curso para um planeta bastante similar a Terra, em que talvez eles possam reconstruir suas vidas, "construindo uma cabaninha na beira de um lago". Os problemas no entanto começam quando a nave é pega numa tempestade solar e várias vidas são perdidas, incluindo-se aí o o capitão da nave (interpretado por James Franco, que aparece por segundo no filme). Apesar de toda a desolação, incluindo da viúva (Daniels), eles recebem uma mensagem vinda de um planeta próximo e claro, também parecido com a Terra. É desta forma que eles decidem averiguar e ver se o planeta preenche os requisitos para ser habitado. O mesmo erro em todos os filmes, interessante que, sempre repetido pelas personagens masculinas, todas umas antas, em contraste com as femininas (Ripley, Elizabeth, Daniels) todas muito sensatas, corajosas, nobres, o que faz a gente se apegar mais e, consequentemente, sofrer mais.

O lugar é nada menos do que o (ex) lar Dos "Engenheiros", lá do filme Prometheus, e novo lar, do nosso mais novo vilão. Contando assim, lembra bastante Alien o oitavo passageiro, mas ledo engano. Obviamente, estão lá algumas homenagens, como disse, a premissa do erro em "mexer no que está quieto" é recorrente na franquia. Mas, este filme é mais violento, as criaturas aparecem de forma mais explícita, com um pesado investimento em efeitos visuais: xenomorfo pra todos os gostos.

O que me incomodou no filme foram as cenas de ação, que não me agradam em quase nenhum filme, já que não tenho paciência alguma pra nada desse feitio, e senti falta de mais enredo, de mais oratória, especialmente no embate entre os replicantes David e sua cópia melhorada, Wilton. As referências à Wagner, Shelley, Byron e a própria criação de Davi (ou David) de Michelangelo são maravilhosas, e é justamente aí que o público que gosta de gore, slacher, vísceras, tripas, sangue e que gostavam apenas dos alienígenas cuja a origem não se sabia nada mas que matam muito, odiaram. Prometheus e Covenant são filmes pra outro tipo de público, no mínimo que saiba apreciar Shelley. Ou até mesmo, entendê-lo.







 



Inté.

2 comentários :

  1. Concordei com muito do que escreveste, o quê torna Covenant distinto de outros filmes sci-fi são exatamente essas minúcias, esses conflitos. Pena que hoje em dia as pessoas parecem não ter paciência para esses tipos de questionamentos e desejarem apenas um entretenimento superficial, descartável e simplório.

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    Respostas
    1. Sim! Muitos conhecidos meus não gostaram nada do filme justamente pela decepção em não encontrar a coisa facilitada de sempre. Obrigada por compartilhar sua opinião:).

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Sejam educados, seus lindos!

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