quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Passeio Público em Fortaleza


Pode não ser um dos lugares mais calmos por conta dos arredores (e já foi pior), mas é dos mais charmosos do Centro de Fortaleza atualmente. A Praça dos Mártires, também conhecido como Passeio Público, é a mais antiga praça da cidade. Além da linda vista dos verdes mares bravios e do Mara Hope, a praça possui como atrativos naturais diversas árvores centenárias, como o famoso baobá plantado pelo Senador Pompeu em 1910. 

Foi restaurada faz uma década, por conta da  Casa Cor Ceará 2007 (mais ou menos como estão reformando a Casa do Barão de Camocim para a próxima edição da Casa Cor), e desde então, a praça voltou a ser frequentada pelas famílias, passou a contar com mais vigilância e a ter atrativos como café, que é bem bacaninha, fazem até piquenique por lá.

Bom, né? Confira ;).


Nos arredores (fora moradores de rua que partem meu coração e gente querendo te assaltar -existências diferentes) tem o Museu da Industria (entrada grátis) e a Emcetur, que sempre vale a visita.






Bisous.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

La Bicyclette, Rio ❤


Uma das padarias (bristrot) mais gostosinhas do Rio, desgraçadamente cara, mas deliciosa, é La Bicyclette. Na foto a sede do Jardim Botânico, talvez até mais cara do que as outras, mas igualmente maravilhosa, iluminada, os pães saem todas com orquídeas brotando e tal (euestoubrincando). 

Fiquei dias viciada nos pães da Bicyclette e sendo zoada por minha erê Carol. Na verdade ela tira onda até hoje, mas tudo bem. Os croissants são divinos, pain au chocolat de morrer, os sanduíches me dão fome só de lembrar. Sim, sou gorda. 




Bisous.

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Ilha de Guaratiba, Rio de Janeiro



Foi dos últimos passeios que fiz ainda uma senhora casada e tal. A família do ex-marido, hoje amigo, tem uma casinha na Ilha (de Guaratiba), uma casinha que à época estava caindo aos pedaços, gritando por reforma. Nesse passeio, inclusive, já não tinha mais a Mata Atlântica atrás da casa, mas sim o BRT, fora que o vizinho recém-chegado era o Túnel da Grota Funda.

 É tudo muito simples, apesar de alguns casarões e sítios de veraneio. É, o povo do Rio faz casa de veraneio dentro do próprio Rio. A cidade é muito heterogênea, muito maluca, do Leblon a Bangu. 

 As estradas que levam para a Ilha têm banquinhas de venda de guaiamum (um tipo de caranguejo), de laranja, de tangerina e se multiplicam as chácaras que vendem mudas de plantas da Mata Atlântica. Como a gente vê em cidade praiana fora da capital, sabe como? Até o sotaque das pessoas me pareceu diferente. 

 Apesar da casa maltratada, o espaço que eles têm é ainda um privilégio. O idh da região pode até ser pior do que o da Baixada, mas a vista, as orquídeas brotando no meio da rua (é sério) e as bromélias florindo por todos os lugares (inclusive nasceu uma no meu pulmão, certeza que sim) valem a distância e toda a coisa insólita. Eu meio que me embrenhei no meio dos matos da casinha, e catei um monte de bromélias e jibóias e de lambuja, umas formigas devoradoras de gente (quase fiquei sem dedos).  Boa parte das minhas plantinhas da casa do Rio vieram de lá, minha casa parecia uma selva, segundo algumas pessoinhas. 


Um pouco do mato onde me embrenhei em busca de espécies da Mata Atlântica. Burle Marx morrendo de orgulho de mim.




Bromélia brotando do nada, em qualquer lugar. Lembro que o teto da casa tinha um monte, de várias cores, mas as fotos não ficaram legais.



A vista "horrível" da frente da casa.



Outra vista "horrenda" dum restaurante onde paramos pra comer uma caldeirada capixaba bem mais ou menos. mas a vista compensou. 



Ventilador antigo do ex-sogro. Uma das minhas maiores mágoas foi ter me separado sem ganhar esse ventilador, que deve estar estragando por lá ou mesmo foi jogado fora (lembro dum móvel que estava sofridinho, mas que dava pra recuperar, mas não queriam nem ouvir falar nisso). gente com visão #sqn



Museu da Grota Funda.




Uma parte da minha mini-selva feita a partir de espécies da Ilha de Guaratiba, bem no começo.


Bisous.

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Jardim Botânico do Rio de Janeiro


Existem outros Jardins Botânicos pelo país e pelo mundo, mas o que é um jardim botânico? Trata-se de uma área reservada no meio da cidade ou seja, do espaço público urbano, onde se cultiva, mantém e conserva vegetação natural da região, como também exótica, além de pesquisas na área botânica em si. Mas a história do Jardim Botânico do Rio de Janeiro tem a ver com o período imperial do país, ou seja, tem raízes históricas, como quase tudo no Rio. Foi obra de D. João VI, coisa de dois séculos, apesar de que o epíteto Jardim Botânico veio com a proclamação da república. 

O lugar é incrível, lindolindolindo de doer n'alma, ao menos pra quem gosta de plantas, de macaquinhos, de esquilos e de sentir cheiro de seiva, de folhas, de flor, de pedra molhada e se sentir muito pequenino perante à maravilha da Aleia Barbosa Rodrigues e seu corredor de palmeiras imperiais. 

 Além da coisa do culto ao verde, o lugar é ótimo para uma sessão de fotos. Aliás, nunca presenciei tantas sessões de fotos ao mesmo tempo: noivos, grávidas, bebês, debutantes, turma de formatura, alienígenas, etc.  Havia a turma dos fotógrafos profissionais, com lentes que fizeram a minha pobre  18-55 mm (pois é, a do kit) ficar meio acanhada. O lugar também é ótimo pra fazer piquenique, mas tem algumas regras, como não levar garrafas pet. De resto é simplesmente maravilhoso. 








(Um raro registro das minhas filhas adolescentes.)










Bisous.

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Parque Lage no Rio de Janeiro ❤



Um dos meus lugares favoritos, dentro do meu lugar favorito do mundo (que é o Rio ❤) é justamente o Parque (Henrique) Lage. Sério, vocês não estão entendendo como é lindo aquele lugar. É um parque público (de grátis), um tesouro quase escondido, pra quem é de fora da Zona Sul, e não tem assim, um ímpeto investigativo batedor de pernas e metido, como eu tinha (e tenho). 

Fica aos pés do morro do Corcovado, tem até como fazer trilha até lá, por dentro do parque, coisa pra gente esforçada e atlética. Foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional em 1957, como patrimônio histórico e cultural da cidade do Rio de Janeiro. Só que a história do Parque Lage é um pouco mais antiga, começa em 1811, quando Rodrigo de Freitas Mello e Castro adquire uma fazenda pertencente a Fagundes Varela, que era o Engenho de Açúcar Del Rei. John Tyndale, paisagista inglês, foi quem reprojetou a fazenda num estilo romântico, com ares de parque britânico. Em 1859 o parque passa para as mãos de Antônio Martins Lage, daí recebe a graça de “Parque dos Lage”. Acabou que a propriedade passou para herdeiros, que por sua vez, passou para as mãos de terceiros, até 1920, quando Henrique Lage, neto de Antônio Martins Lage, consegue reaver a antiga propriedade da família. Nessa época o parque e o palacete passam por remodelações, assinadas pelo arquiteto italiano Mario Vodret. Seu trabalho se encaixa em época e estilo como arte eclética. Das mãos dos Lage o parque passou à público e patrimônio, o que foi muito bom, porque decerto já teria se perdido, como algumas outras propriedades lindas não só do Rio, mas desse nosso Brasil varonil. 

E eu sempre quis conhecer o Parque Lage por conta do Glauber Rocha. É! Só para lembrar, em 1967 Glauber Rocha usou a Parque Lage como sede do governo da cidade de Alecrim, país de Eldorado, cenário de nada mais, nada menos do que Terra em Transe! Imagina a minha emoção? 

Tirando a vegetação tipicamente brasileira, da Mata Atlântica, até dá pra delirar que estamos em algum bosque encantado da Europa. Eu acho que vi uma fada na gruta que fica no parque. Sim, tem uma gruta com estalactite e tudo. Um dos programas favoritos dos cariocas é fazer piquenique nos parques públicos, e óbvio que o Parque Lage é um dos destinos certos, tanto, que conta com uma fila de espera, como tem em restaurante, por exemplo. O povo fica lá, em pé, esperando uma vaga na grama pra estender as toalhinhas. Além da beleza e das sombras fresquinhas, da vista, a entrada é de graça, porque é um parque público, e não há regrinhas chatinhas, como há no Jardim Botânico, por exemplo. No dia em que fui, estavam fazendo uma festinha de aniversário de princesa  (e eu ganhei um brigadeiro *_*), perto do castelinho (eu chamo de castelinho, mas é tipo uma torre). fazem ideia disso? Visitem o Parque Lage, virem esquilos e vão morar no Parque lage, eu vou virar um esquilo.








Bisous.

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Água Negra, versão de Walter Salles



Passei anos me recusando a assistir a versão estadunidense do fantástico Dark Water japonês, por realmente não acreditar que fizessem algo minimamente a altura, como o caso de O Chamado, que conta com boa versão hollywoddiana. Mas dia desses estava passando de madrugada na televisão e resolvi dar uma chance.

O nome por trás da versão ocidental de Honogurai mizu no soko kara (de Hideo Nakata, 2002) é um conhecido nosso, Walter Salles (Central do Brasil), que fez o filme do jeito dele, o que devo confessar, ficou bom: um filme com pegada setentista, à moda de O exorcista (1973) e dos suspenses opressivos de Roman Polanski. Não interessa a Salles, ainda que se mantenha fiel à premissa original, pregar sustos. O filme de Nakata já era bem econômico neste sentido, mas tinha lá seus vultos no espelho, no elevador, suas crianças correndo diante de portas abertas. Salles reduz ainda mais esse tipo de recurso. Os sustos só servem para extravasar a tensão psicológica que ele faz questão de represar. O único artifício que Salles preserva é, evidentemente, o líquido lodoso que sai de torneiras e pinga do teto. Já reparou como todo filme de terror tem o seu problema de encanamento, com banheiras transbordando? Pois aqui a água, protagonista, está por todo lado. Não a causa, mas o efeito. 

Não pára de chover em Roosevelt Island, anexo pobre de Manhattan, com seus prédios customizados para abrigar centenas de famílias. É para lá que se muda Dahlia (Jennifer Connelly) com sua filha Ceci (Ariel Gade, um achado) depois de se separar do marido (Dougray Scott). Ele reclama da distância, diz que é provocação para dificultar suas visitas, ameaça pedir a guarda da menina na justiça. Dahlia diz que o aluguel barato, o metrô e a escola na porta de casa contaram mais. Mas basta ver o apartamento para conferir o sacrifício que elas fazem. O lugar é um buraco. O malandro Mr. Murray (o maravilhoso John C. Reilly), administrador do prédio, tenta dissimular o indisfarçável. É a chuva, diz ele, diante das goteiras que dominam o cubículo apertado, escuro, depressivo. 

Bem, Dahlia não demora para descobrir que o problema não é a chuva. A grande sacada do diretor é intercalar manifestações sobrenaturais com evidências de que elas são só paranoia de Dahlia. Manter o pé no verossímil, até onde for possível, é importantíssimo dentro da sua proposta: tratar da família. Afinal, a preocupação da personagem de Jennifer Connelly (que compreendeu bem o que o diretor queria) é manter a filha ao seu lado. O marido reclama, seu emprego paga mal, a escola da menina não vai bem e o teto periga desabar em sua cabeça. Tudo conspira para afastar as duas (e, na visão de Dahlia, a estranheza que toma o apartamento é apenas parte dessa conspiração). Nakata, também criador dO Chamado e Água Negra originais tem outra preocupação, a sociedade japonesa é menos emotiva, ou sentimentaloide, dependendo também do ponto de vista. E os suspenses japoneses atuais são prioritariamente baseados na filosofia oriental. Tem-se um mistério do além e tem-se uma pessoa, afetada por uma espécie de maldição, que só se libertará quando solucioná-lo. Água negra na versão de Walter Salles funciona diferente, porque não privilegia o fantasma, mas a maldição; não a causa, mas o efeito.

Inté.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

50 Sabores da minha infância ❤


O sorvete da minha infância tem nome e endereço, 50 Sabores da sede fofinha na Avenida 13 de maio em Fortaleza (antigamente era Sorveteria Tropical). Quando erê, uma das minhas alegrias mais intensas e prazeres mais verdadeiros era parar nessa sorveteria e me acabar no sorvete de cajá, que inclusive ilustra esta nossa postagem (o de trás é menta e chocolate, escolha da minha filha).

No Rio, experimentei alguns dos sorvetes considerados os melhores do país, Bacio di Latte, Freddo, Mil Frutas. De chocolate o Bacio di Latte é quase imbatível, mas em geral, o Mil Frutas me agradava mais, só que nenhuma me fez esquecer a minha querida 50 Sabores, que na verdade conta com 150 sabores, de enlouquecer qualquer fã de sorvete, como eu. 

Assim que voltei do Rio, uma das minhas primeiras visitas não foi a um amigo antigo, parentes (eca), não, fui a uma sede da 50 Sabores (do RioMar) e escolhi um outro sabor de fruta, de tangerina. Gente, tem que se criar um adjetivo novo pra classificar esse sorvete: tangerinoso, bergamotoso, mandarinoso, etc.

Se você estiver em Fortaleza e quer experimentar um sorvete delícia, que é a cara de Fortaleza, e não apenas de uma região da cidade, o nome é 50 Sabores. E não, esse não é um publieditorial, é só amor mesmo.

Bisous.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Louça



Sentada, num raro momento de intervalo, eu me peguei contemplando a sem-gracice do meu café num copo de plástico. Café recantado, do meio da manhã. Inclino o copo e vejo que forma umas bolhinhas, que lembram ovas de peixe, mas de algum peixe de águas lamacentas, turvas, miasma do rio Pajeú. Um pouco antes, lia A Paixão Segundo GH, e a coisa da barata - várias páginas de GH e a barata em fluxo de consciência - para então chegar à epifania através da contemplação do café no copo de plástico.

E esse copo de plástico é  alguma espécie de símbolo desse mundo de segunda mão em que vivemos, e que todos aceitam como dádiva, mas que na verdade é um malfazejo, uma praga, uma moléstia, que sorve das nossas medulas a humanidade, nos transformando em simulacros da sem-gracice. 

Poucas coisas podem ser mais sem graça do que tomar café nesses copinhos, em vez de usar uma xícara, ou mesmo uma caneca - vi uma caneca de listras francesas dia desses, e listras são ousadas em sua simetria simples que rompe com a vulgaridade. Mas o copo descartável significa a economia - você vão vale o preço da xícara ou da caneca. O não especial, que é a mensagem primeira desse mundo que sorve a medula da gente: você não é especial - brilha o neon pálido dos contracheques. Está lá em Creep, inclusive.

A xícara significa um grito de rebeldia, em que se ousa sair do descartável, do vulgar e manter um certo requinte ultrajante em tomar café em xícara de louça. E seria um café licoroso, com o perfume do sertão de cada um, adoçado com melaço negro do engenho de 30...


sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Virtudes



Dia desses eu descobri que um número grande de adolescentes muito próximos a mim, não sabem o que a palavra virtude quer dizer, mesma que venha num contexto, e que tampouco se interessam em procurar algum significado, e daí não praticam as virtudes, nem em âmbito espiritual, tampouco em âmbito intelectual. Uma geração de não virtuosos.

O mais curioso disso tudo é que são quase todos participantes de comunidades cristãs, que supostamente fazem leitura bíblica, a bíblia que tanto fala em virtudes (exemplos que me ocorrem rapidamente: Coríntios 3:16, Atos 1:8). Como pode ser possível que essa palavra seja uma completa desconhecida de alguém que lê um texto que tanto fala de virtudes? O que me ocorre, como alguém das Letras, é que essas pessoas leem e não absorvem, fazem uma leitura mecânica, equivocada, ou fingem que leem, mas não leem. 

O que me fez pensar: será que está aí o problema dessas pessoas?  E se levarmos para a Filosofia, fica ainda pior, já que a virtude é um tema recorrente. Virtude é uma palavra que tem origem no latim virtus e significa força viril, do grego aretê do grego adaptação perfeita, excelência, virtude, ou seja, igado à noção de cumprimento do propósito ou da função a que o indivíduo se destina.  Hoje o significado de virtude está mais ligado ao de uma qualidade manifestada por um indivíduo, que tanto pode ser uma qualidade inata, como adquirida. E nesse sentido podemos distinguir as virtudes intelectuais e as virtudes morais, que citei. sendo as primeiras relacionadas à inteligência e as outras ligadas à ideia de fazer o bem.

 A capacidade de aprendizagem, a reflexão, a capacidade de raciocinar, a lógica, o pensamento abstrato, o diálogo, a busca pelo conhecimento, seriam virtudes intelectuais. Agir de acordo com as noções de bem, dentro da ética e com justiça, fugindo das tentações e buscando sempre a prudência e a temperança nas ações, são as virtudes morais. Assim, virtude no sentido moral seria a inclinação de uma pessoa em praticar o bem ou, em outras palavras, tudo o que encontramos na personalidade de um indivíduo que o leve a fazer boas ações.

 Dentro do cristianismo, encontramos ainda as virtudes teologais, teológicas ou sobrenaturais, que seriam aquelas virtudes que são um dom de Deus. São elas: fé, esperança e caridade; por outro lado temos as virtudes cardeais, que se adquirem pelo esforço e são de onde todas as outras virtudes se originam. São elas: prudência, coragem, temperança e justiça. Contudo, apesar de virtude tradicionalmente estar associada a moral, a questões intelectuais e teológicas, é comum usar-se a palavra virtude para se referir a qualquer qualidade apresentada por uma pessoa ou para designar alguma característica do caráter de alguém valorizado pela sociedade. E linguisticamente, virtude também pode ser usada como sinônimo de causa, motivo ou consequência. Como por exemplo, na frase: “Sócrates morreu em virtude de um veneno".

Então, é na etimologia de virtude (força criadora para os romanos, e excelência para os gregos) que se encontra o que é a virtude propriamente dita. Virtude é prática, é ação, e causa, seja ela moral ou intelectual. Mas confesso que através dos anos, observo as virtudes se fazerem presentes através da reflexão, do raciocínio, da lógica, da abstração, da busca pelo conhecimento e conseguente fuga da ignorância, e além, da capacidade de dialogar, tão em falta em épocas de proto-fascismo patente.

Inté.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

O Nevoeiro



Diferente do último filme resenhando, A Pirâmide, este eu não assisti de madrugada, mas sim numa tarde sem ter muito o que fazer ou com preguiça de fazer algo, além de assistir televisão. O engraçado é que sempre via este filme passando, mas nunca tive vontade de assistir. Ou coragem. Não que o enredo me assustasse (um nevoeiro maligno com coisas sinistras matando todo mundo), mas sim com medo de presenciar outro texto do Stephen King mal adaptado (e são muitos).

Normalmente, os filmes baseados na obra de Stephen King são ruins. bem ruins. Alguns muito muito ruins. As exceções ficam por conta de Carrie (do Brian de Palma) e O Iluminado (versão Kebruck, apesar de que Stephen King odeia a versão). Quando vi anunciarem mais uma adaptação (baseado numa novela no Tripulação de Esqueletos), pensei: lá vem bomba.

Mas, numa tarde quente de julho, resolvi assistir a versão para o cinema de The Mist, O Nevoeiro. Começa com uma violenta tempestade que devasta a cidade. David Drayton (Thomas Jane, de O Justiceiro), um artista local, corre com seu filho para o supermercado para comprar suprimentos e material para remendar uma das janelas de sua casa, destruída por uma árvore. Neste meio tempo, um estranho nevoeiro toma conta da cidade e acaba deixando David e mais alguns moradores locais presos dentro do supermercado. Logo eles descobrem que existe algo mais no nevoeiro, e sair dele pode significar a morte. 

Intimamente, O Nevoeiro é muitas coisas, e todas elas muito legais: começando pela clara influencia de  H. P. Lovecraft e William Golding; um ensaio sobre o horror na cultura; e uma reflexão sobre a fragilidade da civilização em tempos de crise. Quem espera ver um filme de monstros, com sangue para todos os lados, pode esquecer. Aqui, os monstros existem, mas praticamente não se pode vê-los. O único monstro (o pior de todos, talvez) que aparece a todo o tempo é o ser humano. Quando as pessoas estão trancadas naquele supermercado, começamos a ver a civilização em reverso, desde o começo, quando a pobre mãe implora que alguém a acompanhe para voltar pra casa, pra salvar os filhos, e todos se recusam, incluindo nosso herói, David, com a justificativa de proteger o próprio filho, no que ele falha miseravelmente.

Vemos uma volta à barbárie, o fanatismo religioso (na pele da Sra. Carmody, muito bem interpretada por Marcia Gay Harden) e a perda de parâmetros. O excesso religioso que (que algumas pessoas reclamaram), é um ponto muito bem abordado por Stephen King em sua novela. Por outro lado, trata-se também de uma reflexão sobre a fé, não apenas religiosa, mas a fé uns nos outros, no amor e no dever, na esperança de que tudo pode acabar bem. E também sobre a própria falta de fé. O desespero (conseqüência do medo do desconhecido) é capaz de transformar o ser humano em uma aberração, e apontar inimigos à sua volta parece ser a única saída para uma situação onde o que importa é sobreviver.

O final é ontológico, muito mais do que na novela.

SPOILER!
No filme, David, seu filho e mais dois sobreviventes conseguem sair do supermercado num carro, no entanto eles viajam até acabar o combustível e continuam encobertos pela névoa e cercado pelas criaturas. Sem trocar uma palavra, eles chegam a melhor solução possível: o suicídio coletivo. Só que restam apenas 4 balas e eles estão em cinco, ou seja, alguém vai sobreviver e ficar a mercê dos predadores infernais que dominaram o mundo. E para David a situação é mais dramática ainda, pois não basta se matar, ele tem que assassinar o próprio filho, só que no desespero não há outra saída. Seus amigos se suicidam e David atira no filho. Ele sai do carro, esperando que alguma criatura o ataque, mas aí ele percebe que os sons que ouvia do carro não eram mais as criaturas, mas sim o exército que deu um jeito de exterminar os monstros e estava escoltando sobreviventes, inclusive aquela mãe do começo da história. Na novela o nevoeiro não tem fim e os personagens ficam em um hotel abandonado, esperando o próximo capítulo, que não chega. 



Amei o filme e depois fui pesquisar quem estava por trás, e era ninguém menos do que Frank Darabont. Para quem não sabe, Darabont foi responsável por duas excelentes adaptações de textos de Stephen King: À Espera de um Milagre (The Green Mile) e Um Sonho de Liberdade (The Shawshank Redemption). Explicado ;).

Inté.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...