domingo, 15 de abril de 2018

Desenhando faz é tempo



Voltei a desenhar, quase como uma necessidade muito forte, que nem eu falei no Instagram, onde tenho duas contas, uma das minhas foteenhas do que eu acho bonito, quase sempre seguindo a tag da Fat Mum Slim, #fmsphotoaday, @lilibete_, já o outro, é dos desenhos, que andava abandonado desde que encerrei as atividades como La Coloriste @lacoloriste, seguindo as tags #100diasdedesenho e #100diasdecriatividadecearense.

Não sei quanto tempo vai durar. Não sei no que vai dar. Como minha filha diz, é que meu cotidiano é muito uó, muito trabalho, não necessariamente em algo que eu ame ou que me faça sentir recompensada. Muita conta, boleto, muita luta, lida que meio que me matam um pouco todos os dias. Sim, é triste. Vocês assistiram Animais fantásticos e onde eles habitam? Não tem o Jacob, quando ele fala pro Scamander que a fábrica o está matando? Pois é :/.

Vamos ver se eu escapo da morte certa, né? Ah, me acompanhem por lá! Eu devo em algum momento ressuscitar a página antiga do La Coloriste no Facebook. Em algum momento, eu disse. Inclusive, quero mudar o nome dessa minha coisa com desenhos, projeto, sei lá. Estou abertas a sugestões.

Bisous.


Divinos Segredos

“Cinema é como um sonho, como uma música. Nenhuma arte perpassa a nossa consciência da forma como um filme faz; vai diretamente até nossos sentimentos, atingindo a profundidade dos quartos escuros de nossa alma." Ingmar Bergmam


Passou um pouco da meia-noite do dia 15, estou aqui, outra noite que o sono não vem e está passando na tv um dos meus filmes sobre afeto feminino favoritos, Divinos Segredos. Acho inclusive que este filme meio que alimentou minhas ambições em relação à amizade e, obviamente, amizade entre mulheres, se não fosse pra ser igual a Irmandade Ya-Ya, não valeria a pena. Engraçado que assisto esse filme há anos, mas só fui decorar o nome uns ano atrás, acho que foi uma espécie de bloqueio, porque as Ya-Yas despertam muita coisa em mim. 

O filme é baseado num livro, que sempre quis comprar mas nunca fui arás. Siddalee Walker (Sandra Bullok) é uma jovem escritor famosa que tm seus liros adapatados pro treatro. Mora em Nova York, bem longe de sua cidade Natal, na Lousiana. Mas pra ela, bem mais importante do que estar nas proximidades da Broadway, é estar longe do “perigo”, personificado na adorável, mas dramática e excêntrica Vivi (Ellen Burstyn), sua mãe. Sidda maldiz o dia em que concedeu uma entrevista à revista Time. Sem perceber, com as informações que passa à repórter, Sidda dá a entender que Vivi não foi uma boa mãe e assim, profundamente ofendida, Vivi declara contra Sidda a mais antiga de todas as guerras: a batalha entre mães e filhos. Para tentar colocar tudo em seu devido lugar, amigas de infância de Vivi resolvem intervir à força no conflito. As irmãs “YA-YA”, membros de uma irmandade inventada por elas quando crianças, resolvem mostrar a Sidda quem sua mãe realmente é e para tanto, terão que permitir que ela revire o livro de fotos e registros dos “Divinos Segredos da Irmandade YA-YA”. 

E aí a gente se depara com uma Vivi que cresceu sendo odiada pela mãe, uma mulher amarga e terrível, alimentando culpa e raiva cristã e descontando tudo na filha. E eu não podia me identificar mais, já que eu tenho a mesma relação com a minha mãe. Demorei muito pra admitir em voz alta que era assim, mas consegui e foi libertador me perdoar por não ser a filha que a minha mãe queria e perdoá-la por ela nunca ter sido a mãe que eu precisava. Lacanianamente, eu me tornei a mãe que eu queria pros meus filhos, da devastação ao amor. Eu sou meio Vivi Walker, sem o charme do sul americano, mais como uma Vivi negra da Lousiana.

Apesar de ser um filme de brancas protagonistas, em que a única personagem negra, apesar de muito amada e importante pra história, aparece como a querida empregada da casa, é um filme com o qual eu me identifico e, é um filme em que identifico traços de afeto feminino, algum sabor feminista, na coisa de uma apoiar a outra, da coisa da sororidade. O filme continua lindo e mesmo sendo quase um filme tolo de seção da tarde, é profundo nas questões psicológicas envolvidas. Assistrr este filme hoje foi como um presente da lua nova.

Inté.

Pequena relação com este post aqui.


domingo, 25 de março de 2018

Bastar-se



Este mês de março está sendo um mês difícil por muitos motivos, pessoais, de dentro de casa, pessoais de fora de casa, como o assassinato político de Marielle Franco, que foi executada por ser mulher negra ativista. Está sendo muito duro. Estou tão exausta, que me pego não querendo falar nada. Minhas aulas desses últimos dias foram aulas políticas, falando sobre direitos humanos, falando contra o fascismo, o racismo, o ódio contra os oprimidos. Sexta falei sobre Tarsila do Amaral, do Abapuro, capa do Raízes do Brasil, livro basilar pra se entender as psicoses do país, e Operários, o meu favorito, que coloca os artistas (Mário e Oswald) como trabalhadores operários também, porque vida de artista é um sofrimento só.

Mas daí que março é mês do aniversário da minha caçula, e o mês do meu natalício. Acabei de completar 41 anos, sem vontade de comemorar. Eu nunca gostei do meu aniversário. Na verdade, parei de gostar lá pelos doze. Como não gostava do meu, muito porque nunca foi bom pra me fazer gostar - meu pai morreu na minha infância, minha mãe não ligava, nunca foi pra uma cozinha fazer um bolo de aniversário pra mim, tampouco se preocupava em comprar um - levei a vida assim, sem ligar. Pro meu. Já dos outros, filhos, amigos, eu sempre dava um jeito de fazer algo, festinhas temáticas, balões, cartões cheios de amor, gosto tanto de comemorar o aniversário alheio, que até já trabalhei com isso. Mas, este ano está difícil.

Além de tudo o que já contei, de todo esse peso, há tudo o que tem acontecido nos últimos quatro anos ou, pensando bem, nos últimos onze anos, que me levou ao ponto de uma quase concreta solidão. Tenho filhos, gatos, cachorro, plantas, livros, música, minha arte e, está bastando. Acho, talvez, que meus amigos, os que sobraram (muuito poucos) devem se aborrecer comigo, pela minha patente ausência. Desculpa se magoa, mas, nesse momento, eu me basto.

Não é que eu não sinta falta das pessoas queridas, não é egoísmo (talvez seja), não é algo pensado, elaborado, planejado, está apenas acontecendo.

Não é que não se precise das pessoas, mas acontece que as pessoas não querem que se precise delas e não vão ajudar caso se precise. Isso em termos gerais. Tem aquela parte da música dos Beatles, What would you think if I sang out of tune? Would you stand up and walk out on me? - Comigo, a galera walk out on me. E todos estes walk out on me depois que eu pedi ajuda. Eu adoraria viver a parte da música do  I get by with a little help from my friends, mas não está dando. Ou já deu, nessa época sombria e cínica em que vivemos.

Aos demais, que não entendem a minha ausência, foi mal aê, mas esta ariana aqui, tem lua em touro, e guarda mágoa de caboclo.

Inté.

segunda-feira, 19 de março de 2018

Selvagem, que nem um coração morto



Eu tinha intenção, desde a última postagem, de vir aqui e escrever sobre algumas coisas, tipo, o desfile lindo da Gucci, aquele das cabeças - arrancadas, duplicadas, medonhas, fantásticas, arrancadas por um troll costureiro - sobre a coisa da síndrome de Thénardier, que é aquela pessoa de origem humilde, pobre, lascada mas que não vale nada, que é bem mais comum do que se imagina, Victor Hugo sabia das coisas. Só que cada vez mais, tenho menos tempo de escrever ou falta é vontade mesmo de.

Escrevo muito, mas em cadernos de anotações, em guardanapos. Corrijo um monte de textos semanalmente, redações de alunos, amostras de livros e reescrevo todos mentalmente, uma centena de textos reescritos e me vejo mingando cada dia um pouco. Cada vez fico mais distante de mim mesma ou, ao menos do que eu era uns quinze anos atrás, cheia de garra, de vontade e de sonhos. Meus sonhos agora se resumem a conseguir dormir uma noite toda, que não falte água no Benfica, que meu rim não volte a doer, que não fique tão difícil pagar as contas, que meus filhos cheguem todos vivos em casa.

Aí mataram a Marielle. Marielle do comitê do Freixo. A Marina vivia me falando dela, do sorriso dela, do abraço dela, das lutas, que nos representavam. Aí mataram a Marielle. Não foi um feminicídio e todos estes que são vários, todos os dias, também doem, até os que a gente não sabe. Foi crime político. Mataram Marielle pelo o que ela representava, porque era uma nova voz, uma voz desprotegida e valente, uma voz falando contra, se posicionando contra uma intervenção escabrosa quando falta pão e sobra choro, tudo o que ela representava. Esta intervenção é o abandono de tudo que está sofrendo o Rio. Aquela criança baleada no Complexo do Alemão é o Rio. Marielle e Anderson baleados no Estácio são o Rio. Aí mataram a Marielle e eu me sinto morta, e coração morto é uma coisa selvagem.

As redes sociais machucam. Você entra, tem um conhecido compartilhando ou escrevendo algo sobre. E é importante e muito simbólico se importar. Teve o ato ecumênico na Praça da Gentilândia, que eu não pude ir, porque estava voltando da labuta. Quarta que foi o dia que mataram a Marielle, corrigi trocentas coisas entre avaliações e atividades de alunos, de gente que nunca vi. Textos copiados da internet, textos mal escritos, alguns textos cheios de esforço, mas todos me matam um pouco, me tiram o colorido desejo de escrever porque eu estou a fim. Dormi exausta, cedo, tomando dois analgésicos desses de 5 conto, porque ir a um médico que me receite um apropriado pro sono é luxo que eu não tenho. Meu médico é do posto, é da UPA. Não vi que mataram a Marielle no dia que a mataram. Só vi no outro dia, após uma longa jornada de trabalho, nos confins periféricos de Fortaleza, voltando de transporte alternativo, observando a feiura e abandono da José Bastos, pessoas dormindo num prédio em ruínas, animais esquálidos suplicando por amor, crianças vendendo amendoins. Tanta coisa que me dói e me mata de pouquinho e pouquinho. E aí, chego em casa, depois disso tudo, que é minha realidade todo o dia, e mataram a Marielle, que representava o sorriso que um dia eu tive. Entendem o selvagem?

Todos os dias em que encaro a vida de frente, com todo o seu pelotão de fuzilamento - as grosserias, os deboches, a indiferença, as maldadezinhas, as maldadezonas - poderia ser um dia em que eu sobrevivi, mas na verdade, eu morri. Morro e renasço todos os dias. Depois que mataram a Marielle, é que eu não sei se retorno do limbo.

Uma criatura que conheci no Rio, cheia da relevância internética, publicou que precisamos de empatia, de nos importarmos com o outro. A mesma criatura a quem pedi emprego quando estava desesperada, com a minha vida toda ruindo e que me deu as costas, quando ao menos poderia ter dito que tudo ficaria bem. São tantas as maldadezinhas e as maldadezonas. Uma outra criatura, que cuida/cuidava duma publicação aqui do Ceará, muito sentida com tudo o que vem acontecendo no país, um pouco antes, começou uma campanha pra ajudar as pessoas que de miúdo começam um negócio, a quem enviei e-mail pedindo pra revisar ou auxiliar revisão de sua publicação, e nada. Ah, e teve outra, quem eu considerava amiga, pedi ajuda diretamente e que me deu as costas. Isso tudo pra contar que uma vez, enviei um e-mail pra campanha da Marielle, empolgada que estava com a lindeza que foi a campanha do Freixo e a dela própria. E me responderam, e foi tão bonito, eu chorei de alegria com aquelas palavras cheias de sorrisos, quente que nem um abraço bom, das lutas que me representavam, da coragem de viver. Não sei se foi ela. Marina diz que foi. E agora ela se foi.

E o que fica pra mim, sempre é Clarice, que morreu da estrela e do sopro, como quem morre de parto: 

(...) E um dia virá, sim, um dia virá em mim a capacidade tão vermelha e afirmativa quanto clara e suave, um dia o que eu fizer será cegamente seguramente inconscientemente, pisando em mim, na minha verdade, tão integralmente lançada no que fizer que serei incapaz de falar, sobretudo um dia virá em que todo meu movimento será criação, nascimento, eu romperei todos os nãos que existem dentro de mim, provarei a mim mesma que nada há a temer, que tudo o que eu for será sempre onde haja uma mulher com meu princípio, erguerei dentro de mim o que sou um dia, a um gesto meu minhas vagas se levantarão poderosas, água pura submergindo a dúvida, a consciência, eu serei forte como a alma de um animal e quando eu falar serão palavras não pensadas e lentas, não levemente sentidas não cheias de vontade de humanidade, não o passado corroendo o futuro! O que eu disser soará fatal e inteiro! Não haverá nenhum espaço dentro de mim para eu saber que existe o tempo, os homens, as dimensões, não haverá espaço dentro de mim para notar sequer que estarei criando instante por instante, não instante por instante: sempre fundido, porque então viverei, só então viverei maior do que na infância, serei brutal e malfeita como uma pedra, serei leve e vaga como o que se sente e não se entende, me ultrapassarei em ondas, ah, Deus, e que tudo venha e caia sobre mim, até a incompreensão de mim mesma em certos momentos brancos porque basta me cumprir e então nada impedirá meu caminho até a morte-sem-medo, de qualquer luta ou descanso me levantarei forte e bela como um cavalo novo.

Foto: Do tempo que eu sorria, Trecho: Perto do coração selvagem.

domingo, 25 de fevereiro de 2018

Pantera Negra - Vou embora pra Wakanda, lá sou amiga do Rei



Desde sempre, antes, muito antes dos conhecimentos acadêmicos virem até mim, já sentia profundo interesse por estruturas utópicas e distópicas na dramaturgia e na literatura. Na universidade, idos de 2003 e 2004, fiz as disciplinas de Literatura Infantil e apresentei trabalhos de análises psicanalíticas e de alegoria distópica dos contos de fadas clássicos dos Grimm, Andersen, etcetera coisa e tal. Li muito Bettelheim. Li muito sobre o tema. 

 As utopias e distopias são (obviamente) marcadas pelo tempo de sua produção. Elas apontam o resultado de um problema contemporâneo, invertem/subvertem a lógica para estabelecer uma tese e assim comentar de forma contundente o presente e o real experimentado. Uma das características das utopias e distopias construídas no século XX é que as sociedades imaginadas nunca são democracias. O autor do século XX sente que a democracia falhou, foi solapada ou não se sustenta como sistema. Temos auto gestões, monarquias, anarquias, sociedades geridas pelo capital privado que engoliu os governos tradicionais, ditaduras totalitárias, sanguinárias e benevolentes, impérios, desgovernos pós apocalípticos. 

Tudo acima faz sentido, mas dentro de Orwell, Huxley, Bradbury, Philip K. Dick. Mas não no Pantera Negra, minha gente. Pantera Negra é um excelente filme de super herói. Wakanda é uma monarquia ok, mas isso não impede Pantera Negra de construir um discurso progressista. Prest'enção: uma história sobre negros, com negros heróis, foda pra caramba, logo progressista, ou ao menos, muito mais do que o Homem de Aço, porque né. Apesar de que, no fundo, blockbuster, norte-americano,  filme, ipsi literis, progressista ou de esquerda, uma discussão destas seria burra e infrutífera. 

 Para reclamar do filme querem que o país fictício de uma narrativa utópica oriunda dos quadrinhos eleja seus representantes por voto popular. É realmente de lascar. 

O que me deixa felizinha é que, cara, o vilão de Pantera Negra. Cara. Que coisa! Spechless. A Lupita, gente. Sei lá. Ela tem o glamour das estrelas da era de ouro. A Shuri, irmã do T’challa. Que personagem. Que figurino. Que carisma. A direção de arte nas cenas de Wakanda. O roteiro. Cara. Tanta camada. Vão se divertir e melhorem.

Inté.

sábado, 24 de fevereiro de 2018

A Forma da Água e os monstros perfeitos



De longe, é o meu favorito dos indicados ao Oscar, apesar de que já sei, não vai ganhar nada, ou quase nada. Inclusive, já ronda por aí acusação de plágio coisa e tal. Bem, o tempo e as provas (ou não) dirão se é ou não fruto da cópia safada do criativo de outra persona. Mas o filme é uma óbvia homenagem ao clássico o Monstro do Lago, mais na perspectiva do monstro. O que sei, neste momento, é que me encontro completamente arrebatada, eu que sempre me chamei de Monstro da Lagoa do Opaia.

Como Del Toro, eu também fui e sou salva, todos os dias, pelos monstros das histórias que me foram contadas, dos filmes que assisti, dos livros que li, dos que invento e escondo.

De formas diferentes, Guillermo Del Toro sempre me agrada, sendo com o trash assistível de sua versão de Blade, decerto com seus filmes mais antigos, como Espinha do Diabo, Labirinto do Fauno, ou com meu filme de super herói favorito, HellBoy (I e II). Porque Del Toro mexe com o meu fascínio pelo fantástico e sombrio, os monstros, como ele mesmo disse no seu discurso no Globo de Ouro deste ano, "santos patronos das nossas imperfeições".

A Forma da Água é uma singular fábula política em que vemos Del Toro nos mostrando além desse mundo real esquisito em que vivemos, onde ódio e cinismo são considerados inteligentes e se você fala de sentimentos parece um idiota. Na Forma da Água, a emoção é o antídoto, é o novo punk, pra quem ama punk, como eu. É um filme apaixonado pelo amor e pelo cinema. E pra narrar seu enredo,  imaginou um conto de fadas bem peculiar, em que uma faxineira muda vive um cotidiano que parece comum, mas não é, é apenas repetitivo. Até que, nas instalações onde trabalha, os serviços secretos prendem uma criatura aquática. Entre os dois excluídos surge um feitiço sem palavras, feito de química e olhares, onde o monstro por uma vez se torna o herói. Aí ele cria um filme que é político, mas obliquamente, não frontalmente, porque ver é o ato supremo de amor. Se eu vejo você, garanto a sua existência. A ideologia pretende negá-lo, transformá-lo em uma coisa: um judeu, um mexicano, um pária qualquer. E Sally Hawkins, nossa faxineira muda, preenche o papel com seus olhos e seus gestos.

O fato é que esta criatura mexicana que fisicamente se assemelha a outra obsessão minha, Totoro, é uma espécie de outsider muito comercial para o modo artista e muito artístico para o modo comercial. É um milagre que tenha conseguido fazer o cinema que queria. Que sorte pra mim, sua fã devotada, que lia histórias de vampiros debaixo das cobertas. 

O pai de tantos monstros parece temer outras coisas, os monstros reais, nossa política atual. Estamos em um momento único, porque nunca vivemos além dos acordos que nos mantêm juntos. A civilização depende de regras imaginárias, mas as respeitamos para funcionar. Um país nunca se cura de uma guerra civil, seja a Espanha ou os EUA, como está sendo demonstrado. Só nos resta recorrermos em nossas orações hereges aos monstros, que pra mim, não são imperfeitos.

Inté.

sábado, 10 de fevereiro de 2018

Cinco bolas de sorvete por 1 real



Descobri esta semana que tem uma filial do Sorvete do Juarez quase de frente pro Iguatemi, o shopping mais pop da cidade. Iguatemi que não é o mais rico (este é o RioMar das Dunas), não é o mais besta (também fica pro RioMar das Dunas), tampouco o mais bonito (Deo Paseo), só que é o mais pop sim. Apesar de toda uma tentativa de manter os suburbanos nos seus devidos bairros, com a enxurrada de shoppings meia boca espalhados pelos confins da cidade.

E o Sorvete do Juarez? Bem, esse aí é uma entidade. Ou, ao menos, virou uma espécie de entidade de uns seis anos pra cá, desde que o Instagram deixou de ser apenas pra iPhone e socializou a coisa dos registros e selfies em rede social de fotografia (e agora vídeo, chat, etc coisa e tal). Mas e o Juarez? Pois é, Seu Juarez era um senhor maravilhoso que criou uma família toda com a fórmula de sorvete que criou pra sobreviver. Era tão bom, que fincou raízes e fez sucesso ao longo das décadas, adoçando a boca de algumas gerações de cearenses das aldeotas. Infelizmente, Seu Juarez faleceu dia desses, mas seu sorvete entrou pra história de Fortaleza, virou tradição e com filiais espalhadas por uma certa região da cidade, digamos, mais abastada: Av. Barão de Studart, Avenida Engenheiro Santana Jr., Av. Santos Dumont, Av. Washington Soares, todos endereços nobres da cidade. 

O que eu quero dizer com isso?

Vamos lá, primeiramente #ForaTemer, em seguida que o sorvete é sim excelente, mas eu que sou suburbana criada entre a Vila União e o Montese, nunca ouvira falar do Sorvete do Juarez até uns poucos anos atrás, por motivos óbvios, porque suburbana e pobre que era, sorvete pra mim era só quando recebia o salário, o velho Kibon (antigamente, Sorvane) napolitano e no resto do mês, quando dava, era com o carro de sorvete (cinco bolas de sorvete por 1 real... tragam a vasilha e que depois virou: já temos a vasilha). E daí que, de repente, esse povo que, como eu, tudo criado tomando banho de chuva na bica do vizinho, comendo jambo das calçadas, jura de pé junto que tomava sorvete no Seu Juarez desde sempre e, ainda me tem a pachorra de afirmar que é o sorvete do coração de Fortaleza. Oi? E desde quando a elitista Barão de Studart é coração da cidade? Que eu saiba, o coração de qualquer cidade é o Centro e o Centro meu povo, não é a Aldeota, a Varjota e o Papicu. Centro é Praça do Ferreira, é a Praça José de Alencar, é a Praça dos Leões, é a Castro e Silva, o Passeio Público, é a Liberato Barroso. 

Eu, como pobre sinistra e atrevida, super acho que temos todo o direito à cidade, a tomá-la de assalto e andar bem afrontosos por ela toda. Um dos meus prazeres ocultos é andar de chinelos havaianas pelos lugares metidos a besta da ensolarada Fortaleza, seja na hamburgueria da troca de tapa ou em qualquer outro lugar hipster e metidinho, simplesmente porque eu nunca deixarei de ser quem eu sou, uma suburbana pé de chinelo e descabelada. Mas é só isso mesmo. Não vou inventar história da carochinha e dizer que me criei tomando sorvete de tapioca do Seu Juarez, quando a verdade é a que descrevi, das cinco bolas de sorvete por 1 real e, que meu ápice era a Sorveteria Tropical no bairro de Fátima (hoje... 50 Sabores), quando minha mãe ia pra novena na Igreja que batiza o bairro ou vice-versa, isso porque o bairro de Fátima é vizinho da Vila União, meu logradouro de origem.

Eu nunca irei entender que mania que esse meu povo tem de ser brega, porque negar as origens é brega que dói. Ser pobre não é brega não. A gente tem ao nosso lado Paulo Freire, Malcom X, Lampião, um monte de gente corajosa e bacana. Vocês não acham, não? Só lamento que seu Juarez não era da Vila União.

Inté.

sábado, 27 de janeiro de 2018

ACS - O Assassinato de Gianni Versace



Idos de 1997, eu era jovem,  já era mãe e morava em Brasília quando Gianni Versace foi assassinado. E aquilo tudo foi um baque e tanto, especialmente porque pouco ou nada se falou sobre o caso. Ele foi morto a tiros na porta de sua mansão em Miami, diria o Plantão da TV. Acabaram aí as informações.

Nem todos sabem, mas meu primeiro emprego (emprego mesmo, com salário e pouca dignidade) foi numa das finadas Lojas Esplanadas, a sede do Montese, este brejo que acha que é bairro urbanizado, desenhando roupitchas pras vovós e afins que compravam 2 metros de viscose pra roupa da missa de domingo na matriz de Nossa Senhora de Nazaré. Eu, uma erê, adolescente na década de 1990, me permitiam, além do uniforme pavoroso que incluía redinha no coque do cabelo (é), usar meus tênis e fazer um quadro de inspiração atrás da minha mesinha de trabalho, e nesse quadro estava uma página de editorial da Versace que eu arranquei de alguma revista feminina de moda. Da Versace do Gianni, não da Donatella. Nada contra Donatlla, absolutamente nada. Ela, pra mim, é um mulherão como eu entendo que é um mulherão: forte, corajosa e fiel aos seus. Mas Gianni, ah Gianni, ele era a Versace que eu cresci amando. 

E agora, vinte anos depois, temos uma série do Ryan Murphy pra contar o que aconteceu. Tudo bem, que a família Versace não autorizou e na verdade está bem chateada com a série e tudo o mais. Mas quem iria resistir, não é mesmo?

De acordo com a revista norte-americana Variety, a família Versace afirmou, em um comunicado oficial, que não tiveram envolvimento com série de TV sobre a morte de Gianni Versace. "Como a Versace não autorizou o livro em que a série é parcialmente baseada, nem participou da escrita dos roteiros, esse programa deveria ser considerado um trabalho de ficção", declararam. A obra "Vulgar Favors", que serviu de inspiração para a série, foi publicada há quase 20 anos e Ryan Murphy, criador da série, afirmou à revista que, apesar de ter preenchido algumas lacunas sobre a história, o trabalho de Maurreen Orth é confiável e bem apurado. Contudo, entre os fatores que chatearam a família, está a reprodução do crime exatamente no mesmo lugar em que aconteceu, em 1997, e a história de que Gianni e Cunanan (o assassino e serial killer) se encontraram anos antes do crime. Além disso, também não aprovou o fato de Gianni ter sido considerado, no livro de Orth, portador do vírus HIV. Sobre a condição médica de Gianni, Tim Rob Smith, roteirista da segunda temporada de "American Crime Story", ressaltou que a importância de mostrar o estado de saúde do estilista é comprovar o quanto a vida era importante para ele, que passou por alguns tratamentos para estabilizar a suposta doença.

E a série?  Bem já estreou no FX, já vamos pro terceiro episódio de dez ao todo. Apesar das críticas,  Gianni Versace é apresentado na série como um ser humano caloroso, um artista apaixonado por seu trabalho. Mas ele não é o foco da narrativa, mas sim a análise das motivações e a instabilidade psicológica que levaram Cunanan a cometer o crime. Aliás, destaque pra interpretação de Darren Criss como o serial killer, eu diria, impactante. No elenco, Penelope Cruz atua como a irmã Donatella e Ricky Martin como Antonio d’Amancio, namorado de Gianni.

As raízes daquelas tradicionais famílias italianas vão ganhando mais força passado o arrebate do primeiro episódio. Se mostrando ainda mais aparentes, elas seguem o ritmo do episódio de abertura, nos revelando um seio familiar tão intrínseco, que chega a ser impenetrável. E a solidão de quem não consegue se esgueirar pelas pequenas frestas desse relacionamento familiar é árdua e perceptível em Antonio D’Amico, parceiro de Versace por 15 anos. Os laços familiares que tecem ao redor de Gianni e Donatella são um dos aspectos mais apaixonantes da série. Passado aquele encanto visual que toda a produção trouxe de maneira impecável em sua estreia, no hipnotizamos pela dinâmica da familiaridade entre os irmãos. E aqui, Penélope Cruz e Edgar Ramirez se entregam um ao outro, em uma das irmandades mais cativantes. Proteção, segurança, carinho e rixa fazem parte desse mundo criado apenas entre os dois. E para os demais personagens de suas vidas? Basta apenas contemplar.

Precisa dizer que estou amando?

Bisous.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Culinária da Van ❤



Finalmente, fui comer feito uma condenada  à Culinária da Van, só que escolhi um dia muito errado, tipo um sol dusinfernos, num domingo preguiçoso, pós primeiro sábado de pré-carnaval, tipo, todos os bichos evolando cevada, perambulando pelas ruas do meu Benfica, vindos das Tabajaras, do Mercado dos Pinhões, todos ávidos por uma tapioca com suco de laranja custando 100 reais (quase, viu?) nos cafés do bairro. Pensei que morreria soterrada debaixo de pochetes hipsters e glitter.

Mas eis que foi, teve que ser neste dia e não foi menos especial. O lugar é lindo, uma casinha antiga  maravilhosa, no coração do Benfica, na Rua Waldery Uchôa, com uma decoração entre o fofo e regional. O atendimento é ótimo, rápido e as comidinhas... gente do céu. Pra começar, as porções são enormes, tudo muito bem servido. Confesso que fui especialmente pra comer um dos destaques do cardápio, sucesso da casa, o camarão crocante com molho de coco, e não me decepcionou. Na verdade, fiquei foi viciada rs. Pedimos outros petiscos, um de frango empanado com bacon defumado e outro que só a deusa na causa, uns quadradinhos de vatapá de caranguejo, caprichado na pimenta, salivo só de lembrar.

Foi uma experiência gastronômica, visitando os sabores do Ceará com um algo de criativo, pertinho aqui de casa e por valores bem acessíveis. 

Só que da próxima, irei no fim de tarde, porque ninguém merece o eterno sol de verão de Fortaleza.



 {meu povo, esse camarão}



Inté.

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Primeiros cafés de 2018 ❤



Olha só, quem está caminhando fortemente pra realizar as resoluções possíveis e sinceronas de ano novo? Euzinha! Tudo bem que na parte da comilança, porque né, sou gorda sinistra.

Café Consulado

Pros

O primeiro café já estava nos planos, Café Consulado, fica num posto ali pelo começo da Avenida Bezerra de Meneses e tem muitos fatores fofurescos, tipo a decoração da parte externa, feita com guarda-chuvas, como aquela rua em Portugal (é uma instalação artística em Águeda). A decoração é bem bacaninha, meio rústica fofinha, tem uns livrinhos coisa e tal 

Então, se você está ali pela Bezerra de Meneses, quer tomar um café, comer um pão de queijo e tirar umas fotos bacaninhas, recomendo o Café Consulado.

Contras

Eu achei muito caro. Tudo bem que eu sou pobre sinistra, mas 50 golpes por três cafés bem mais ou menos e três pães de queijo? Ok, não chega a ser caro feito o Mercado do Café (aqui no quintal de casa, um dos meus amorzinhos do Benfica, mas que por conta do hype, está ficando meio sem noção com os valores cobrados. Depois escrevo sobre), mas O Consulado do Café não é dos mais baratos. E eu não achei as bebidas tão boas assim.

Eu, como sempre, escolhi a bebida mais diferente do cardápio e daí que não tinha um tal dum chocolate lá pra mode misturar e ornar com a tangerina (sim, eu escolhi o café com tangerina) e não estava bom não ó. Na verdade, confesso que foi um dos piores cafés que já tomei na vida. Fora que a criatura humana caprichou nas raspas de tangerina, que já é um trem amargo, imagina aí, que dilíça.

Resumo: saí de lá azedíssima (literalmente), mas com lindas fotos. 


 
{the moneo}


Pros

Escondidinho no Centro de Fortaleza, confesso que já havia passado em frente, indo comprar material escolar nas atacadistas ali pela Praça dos Correios, mas nunca tinha reparado. É lindo, décor moderna, pode-se dizer que é a Starbucks brasileira e pra mim isso é um elogio e tanto, já que eu amo a Starbucks (saudade Starbucks). As bebidas são ótimas (com copinhos personalizados), as comidinhas deliciosas e o preço bem honesto. 

Contra

Nenhum :)





Bisous.
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